A história insiste em silenciar o feminino — e nós insistimos em renascer
A violência contra mulheres não começou ontem. Ela atravessa séculos, religiões, culturas e estruturas que tentaram controlar o corpo, a voz e o destino feminino. Das vestais obrigadas à pureza ao feminicídio que ocupa nossos noticiários, existe uma linha dolorosa: quando a mulher se afirma, ela é punida. Este texto é uma reflexão sobre essa herança histórica e a força das mulheres que, apesar de tudo, seguem levantando a própria voz.
HISTÓRIA DO FEMININO
Francisca Lopes
12/2/20252 min read

A história do feminino é marcada por força, mas também por feridas profundas. Em muitas culturas antigas, a mulher era vista como ponte entre o sagrado e o mundo. Mas ao mesmo tempo em que era honrada, também era vigiada, controlada e punida. Como se seu poder precisasse ser contido.
As vestais, por exemplo, eram meninas escolhidas entre os 6 e 12 anos para guardar o fogo da deusa Vesta. Eram respeitadas, mas viviam sob uma condição impossível: a pureza absoluta. Caso falhassem — mesmo quando a falha não fosse culpa delas — eram enterradas vivas. Um corpo feminino punido por existir fora da regra.
Esse é só um capítulo dentro de uma longa linha do tempo em que a voz da mulher sempre representou risco. Quando ela pensa, quando questiona, quando rompe o limite, quando não aceita o silêncio. A história é cheia de maneiras de lembrar às mulheres que o mundo preferia que elas fossem quietas.
Hoje, mesmo que vivamos em outra era, o eco desse passado continua. O feminicídio não nasce de um ato isolado: ele nasce de uma cultura antiga, enraizada, que ainda vê a autonomia da mulher como uma ameaça.
Mas existe algo igualmente verdadeiro: o feminino nunca deixou de renascer. Apesar das tentativas de apagamento, as mulheres seguem erguendo suas vozes, cuidando umas das outras, reconstruindo espaços, curando feridas que nem foram escolhidas por elas.
E é aqui que Jung nos oferece uma reflexão profunda. Ele dizia que todo homem carrega dentro de si uma dimensão feminina, a Anima — sensibilidade, empatia, intuição, afeto. Quando essa parte interna é negada, reprimida ou ridicularizada, o homem se distancia de si mesmo. E, desconectado da própria humanidade, repete violência.
Por isso, o que vemos hoje não é apenas um problema social. É também um problema psíquico, simbólico, ancestral.
Uma ferida profunda entre o masculino e o feminino — dentro e fora de nós.
E no meio de tudo isso, fica um chamado para reflexão:
Afinal, o que está acontecendo com os homens do nosso tempo?
Será que não têm mulheres, mães, irmãs, avós, tias em suas vidas?
Uma mulher não precisa de um homem para defendê-la — mas um homem precisa, sim, honrar a sensibilidade, a intuição e a doçura que habitam dentro de si.
Porque é exatamente aí que mora o seu feminino.
É exatamente aí que começa a cura.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
• Lerner, Gerda. A Criação do Patriarcado.
• Federici, Silvia. Calibã e a Bruxa.
• Jung, Carl G. Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.
• Neumann, Erich. A Grande Mãe.
• Mary Beard. Mulheres & Poder.

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