Como reconhecer um trauma?

Francisca Lopes

11/10/20252 min read

Como reconhecer um trauma

Muitas pessoas acreditam que trauma é algo restrito a grandes tragédias, como acidentes ou perdas. Mas, na realidade, o trauma pode nascer de experiências aparentemente “menores”, porém vividas como intensas e desorganizadoras. Ele não está apenas no que aconteceu, mas em como o corpo e a mente registraram o que aconteceu.

A psicologia e a neurociência mostram que o trauma é uma resposta de sobrevivência. Quando algo ultrapassa nossa capacidade de lidar emocionalmente, o sistema nervoso entra em modo de defesa. A amígdala cerebral, responsável por detectar ameaças, permanece em alerta constante, enquanto o hipocampo, que organiza a memória, perde a capacidade de integrar a experiência no tempo. O resultado é um corpo que reage como se o perigo ainda existisse.

Como reconhecer, então, um trauma não resolvido?
Ele pode se manifestar de formas sutis: hipervigilância, irritabilidade, dificuldade de relaxar, sensação de vazio, ansiedade sem causa aparente, lapsos de memória, insônia, problemas de concentração ou reações desproporcionais a certas situações. Em nível emocional, surgem padrões repetitivos — relacionamentos autodestrutivos, necessidade de controle, medo de abandono, ou a tendência de evitar vínculos profundos.

Segundo Bessel van der Kolk (2014), “o corpo guarda as marcas” dessas experiências, e muitas vezes fala por meio de sintomas físicos, mesmo quando a mente tenta esquecer. Peter Levine (1997) complementa que o trauma é uma energia presa no corpo, e o processo terapêutico deve permitir que o sistema nervoso conclua a resposta interrompida do passado.

A terapia online tem se mostrado uma ferramenta eficaz para esse processo. Além de ampliar o acesso ao cuidado psicológico, permite que o paciente se conecte com o terapeuta de um ambiente seguro e familiar, o que facilita a expressão emocional. Estudos recentes em neuropsicologia indicam que o vínculo terapêutico, mesmo mediado pela tela, continua sendo o principal fator de mudança.

Reconhecer um trauma é, antes de tudo, um ato de coragem. É olhar para as próprias reações com curiosidade e compaixão, sem julgamento. O trauma não define quem você é — ele apenas revela o que ainda precisa ser acolhido. E com o apoio de um profissional capacitado, seja presencialmente ou em terapia online, é possível reescrever essa história de dentro pra fora.

Referências:

  • Van der Kolk, B. (2014). O corpo guarda as marcas: Cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Editora Intrínseca.

  • Levine, P. (1997). Despertando o tigre: Curando o trauma. Summus Editorial.

  • Siegel, D. (2012). O cérebro em transformação: A ciência da mudança pessoal. Artmed.